Proposta de trabalho número 1
No âmbito da Unidade Curricular
Design e Comunicação Visual, foi desenvolvido o projeto que aqui é descrito – a
elaboração de uma composição gráfica para a capa de um CD e para a comumente
designada “bolacha”.
Não havendo um tema pré-definido,
esse estaria aliado a uma música, à escolha de cada discente. A partir dessa
música, seria então desenvolvida uma composição gráfica. É relevante, antes de
mais, enunciar a música escolhida para este projeto – when we dream, Atma.
Sendo uma música de transe, relaciona-se imediatamente ao sonho, ao mundo
onírico e ao entrar em “estado de transe”, isto é, o ser humano, quando ouve
este tipo de música – bem como noutras situações – desliga-se do mundo real,
das suas condições externas e internas e experimenta um estado de consciência
alterado, caracterizado pela suspensão dos sentidos. No fundo, experimenta um
mundo diferente, ao seu gosto, envolto nos seus pensamentos. Esta associação
pode explicar-se pela composição das músicas - ritmos acelerados, quantidade de
batidas por minuto, a letra, entre outros aspetos. Note-se que só o título da
música escolhida remete para o sonho – when
we dream (quando nós sonhamos). Em geral, a
maioria das canções são calmas e de efeito lento e constante na energia-alma e
no estado de pensamento. A tradução literal do termo trance para português é transe.
O nome foi recebido devido às batidas repetitivas e pelas melodias progressivas
características, que levam o ouvinte a um estado de transe, de libertação
espiritual, enquanto ouve.
O projeto
No momento da receção da proposta de trabalho, a primeira
etapa a realizar foi o esboço em papel – o momento crucial. “O processo de
composição é o passo mais crucial na solução dos problemas visuais. Os
resultados das decisões compositivas determinam o objetivo e o significado da
manifestação visual e têm fortes implicações com relação ao que é recebido pelo
espetador.” (Dondis, Donis A.
2003:29).
Concluído o esboço, o
trabalho passava por começar o projeto no programa Adobe Illustrator CS6. Nesse momento, não havia tido qualquer
contacto com o programa, pelo que foi, efetivamente, um desafio. Seguiram-se
inúmeras experiências – momento que designo de “tentativa-erro”. Uma das
experiências foi o desenho com ponto. Acontece que o resultado não foi o
esperado. Depois seguiu-se a técnica com os triângulos que, a priori, também não resultou. A escolha
da forma triangular explica-se por estar frequentemente associada ao transe. No
maior festival português deste estilo musical – boom festival – é mais do que evidente a presença desta forma. No
blogue onde consta este projeto estão presentes algumas imagens que atestam isso
mesmo. Entre experiências e pesquisas, descobri que esta técnica é conhecida
como low poli, consistindo no desenho
de triângulos cujos vértices encaixam formando uma determinada figura. Com esse
objetivo, foi selecionada uma imagem da web,
incluída numa layer, sobre a qual se
desenharam os triângulos através da ferramenta pen tool. Conseguidos os triângulos, eram interseccionados através
dos vértices com a ferramenta seleção rápida e assim o rosto ia ganhando forma.
Triângulo a triângulo, o processo foi sendo concluído. A mesma técnica se
aplicou à “bolacha” no desenho das letras. Neste caso, foram desenhadas as
palavras “WHEN WE DREAM” através da ferramenta type e, em seguida, triângulo a triângulo, as letras ganharam o
mesmo aspeto do desenho, conseguido assim, uma uniformidade nos dois elementos
do projeto – capa do CD e área circular, designada comumente “bolacha”.
Ora, a
composição gráfica não se limitou a ser um rosto composto por triângulos nem o
nome da música escolhida constituída da mesma forma. Acontece que ambas as
figuras acabam por se decompor: no
caso do rosto, a partir do cimo da cabeça e, no caso das letras, a partir do
cimo das letras. Esta espécie de decomposição
diz respeito ao momento de “entrar em
transe”, isto é, de evasão que o
rosto em questão experimenta, em virtude da música que ouve, a música que dá
corpo a este projeto. Também por este motivo se explica que o rosto tenha os
olhos fechados: fechar os olhos é o comportamento primário para o ser humano se
distanciar da sua realidade. Note-se o significado da expressão mencionada –
fechar os olhos, fazer vista
grossa (Portugal), rejeitar, brush-off (en) - disregard, neglect (en) - dismissive (en), pôr de lado, desconsiderar, ignorar.
Em suma, é a recriação do momento em que um indivíduo se
entrega à música que ouve, alheando-se
da realidade e experimentando um mundo novo, distanciando-se do mundo real.
No caso da “bolacha”, também as letras se decompõem à semelhança do que se
verifica com o rosto com o objetivo de uniformizar os dois elementos do
projeto, criando dois elementos harmónicos.
Outro aspeto que carece
de explicação é a paleta de cores escolhida. Em primeiro lugar, era objetivo
fundamental que o desenho, apesar de ser construído por triângulos, se
parecesse com um rosto humano. Simultaneamente, esta composição gráfica estava
subordinada ao tema “entrar em transe” tendo em conta a música escolhida, pelo
que era fulcral que a paleta cromática refletisse o espírito do transe. Regra
geral, os videoclips deste género
musical têm múltiplas cores, sempre de tons fortes – roxo, amarelo, azul,
verde, vermelho, etc, combinadas, frequentemente, com o objetivo de criar
ilusões de ótica, padrões e alguns elementos frequentes no transe. Note-se a
figura 3. Assim, neste projeto consta um equilíbrio entre as cores que
caracterizam o rosto humano – várias tonalidades de rosa, beges, amarelos; e
alguns apontamentos de cores fortes, associadas ao estilo musical em questão. O
desafio foi precisamente encontrar este equilíbrio, sem que o rosto esmorecesse
demasiado ou, pelo contrário, se tornasse demasiado extravagante. No caso da
“bolacha”, em termos cromáticos, a preocupação incidiu em equilibrar as cores
àquelas que haviam sido utilizadas na capa do CD. No final, esse aspeto parece
ter sido conseguido, sendo que os dois elementos combinam perfeitamente.
Elementos básicos de comunicação visual
Neste projeto
estão presentes alguns elementos básicos da comunicação visual, a saber: a forma,
a cor (já mencionada acima) e a dimensão. No caso da forma, a que
está claramente presente neste projeto é o triângulo, uma das três formas
básicas (quadrado, círculo e triângulo). A sua escolha foi já justificada –
deve-se à sua constante presença no mundo do transe. Note-se também que “A
partir de combinações e variações infinitas dessas três formas básicas,
derivamos todas as formas físicas da natureza e da imaginação humana” (DONDIS, Donis A. 1991:54). No caso da dimensão, há a
referir que é, efetivamente, um aspeto fundamental neste projeto por se tratar
da reprodução de um rosto humano. Assim, diz-nos o autor anteriormente citado
que “Os efeitos produzidos pela perspetiva podem ser intensificados pela
manipulação tonal, através do claro-escuro, a dramática enfatização de luz e
sombra”. No fundo, é a relação entre dimensão e cor que permitem a
interpretação da composição gráfica que nasce com este projeto.
Técnicas de comunicação visual
As técnicas de comunicação visual são enumeradas por Donis A. Dondis no seu
livro A sintaxe da linguagem visual. Neste projeto especificamente, estão
presentes as seguintes: unidade, fragmentação, profusão e espontaneidade.
A unidade diz respeito a diversos elementos formando uma totalidade como se
atesta pela presença dos triângulos a formar um rosto humano, conferindo à
composição gráfica equilíbrio e harmonia. Já a fragmentação diz respeito à
decomposição de elementos de um conjunto e esta técnica é, também, fácil de
identificar neste projeto. Afinal, a palavra “decomposição” já foi referida
nesta memória descritiva várias vezes aquando da explicação do projeto aqui
descrito. À fragmentação associam-se termos como movimento, estímulo e
variedade que não podiam ser mais visíveis neste projeto em concreto. A esta
técnica alia-se a profusão descrita como “detalhamento visual de formas
básicas” o que nada mais é, neste projeto em concreto, do que fragmentação de
um rosto humano em triângulos, uma das formas básicas. Finalmente, é visível
ainda a espontaneidade - essencialmente nos triângulos soltos oriundos do rosto
humano no caso da capa e da frase “when we dream” no caso da bolacha que não formam
nenhuma figura, podendo essa parte da composição gráfica ser considerada como “impulsividade,
liberdade, movimento” às palavras de Donis A. Dondis.
Leis da Gestalt
Baseados numa série de experiências, os psicólogos da Gestalt
descobriram diversas leis da perceção que são comuns à grande maioria das
pessoas. Duas delas encaixam perfeitamente no projeto descrito neste documento.
Estas leis são explicadas na perfeição no livro Gestalt do Objeto: sistema de
leitura visual da forma, de João Gomes Filho.
· Unidade
É, comumente, definida como um ou mais
elementos que constituem um objeto. É o caso da composição gráfica criada
através da música “when we dream”. Há um rosto humano constituído através
da forma triangular – ou seja, através de um conjunto de elementos é formado um
objeto concreto.
· Fechamento
Por fechamento entende-se a criação de
uma ordem espacial, conseguida através das forças de organização visual. Ou
seja, com a continuidade de determinados elementos obtém-se a sensação de
fechamento visual. Isto é conseguido, em parte, pela capacidade de memória
visual e pelo reportório cultural de cada indivíduo. No caso deste projeto, o
elemento desenhado é um rosto humano, pelo que é de fácil reconhecimento.
Através de um sem número de triângulos dispostos numa ordem estrutural definida
consegue-se que seja identificado um rosto humano.
Aquando da receção desta proposta, o meu conhecimento na
área do Design era quase inexistente pelo que as expectativas quanto a este
projeto eram relativamente baixas. Acontece que a escolha da música foi um
aspeto favorável na medida em que impulsionou a imaginação e criação da
composição gráfica. De facto, when we
dream, de Atma, foi uma boa
aposta.
Quanto à composição gráfica propriamente dita, foi
extremamente minuciosa e, consequentemente, trabalhosa. Ao longo de dois dias,
o rosto humano foi ganhando forma num programa do qual não tinha conhecimento
absolutamente nenhum, por isso consistiu num sistema de tentativa-erro até que
o resultado fosse do meu agrado. Isso, efetivamente, aconteceu. O Adobe
Illustrator CS6 é um programa excelente para este tipo de projetos, pelo que é
uma mais-valia daqui em diante.
O resultado final superou as expectativas que, como
mencionado, eram inicialmente baixas tendo em conta a falta de experiência não
só na área do Design como também nos programas que o servem. Assim, parece-me
que foi conseguida uma composição gráfica alusiva à música escolhida: não sendo
uma associação óbvia, pois implica uma reflexão por parte do observador, é uma
associação possível com um sentido lógico bem definido.
Poderia, até, ser feito um dicionário relacionado com o
projeto constituído por palavras-chave: when we dream, sonho, decomposição,
fragmentação, unidade, alheamento.
Foi, efetivamente, um projeto prazeroso.
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